Pensando
nas histórias populares
Se
examinarmos as fábulas populares, verificaremos que elas representam
dois tipos de transformação social, sempre com final feliz. Num
primeiro tipo, existe um príncipe que, por alguma circunstância, se
vê reduzido a guardador de porcos ou alguma outra condição
miserável, para depois reconquistar sua condição real. Num segundo
caso, existe um jovem pastor que não possuiu nada desde o nascimento
e que, por virtude própria ou graça do destino, consegue se casar
com a princesa e tornar-se rei.
Os
mesmos esquemas valem para as protagonistas femininas: a donzela
nobre é vítima de uma madrasta (Branca de Neve) ou de irmãs
invejosas (Cinderela), até que um príncipe se apaixone por ela e a
conduza ao vértice da escala social. Ou então uma camponesa pobre
supera todas as desvantagens da origem e realiza núpcias
principescas.
Poderíamos
pensar que as fábulas do segundo tipo são as que exprimem mais
diretamente o desejo popular de uma reviravolta dos papéis sociais e
dos destinos individuais, ao passo que as do primeiro tipo deixam
aparecer tal desejo de forma mais atenuada, como restauração de uma
hipotética ordem precedente. Mas, pensando bem, os destinos
extraordinários do pastorzinho ou da camponesa representam apenas
uma ilusão miraculosa e consoladora, ao passo que os infortúnios do
príncipe ou da jovem nobre associam a imagem da pobreza com a ideia
de um direito subtraído, de uma justiça a ser
reivindicada, isto é, estabelecem no plano da fantasia um ponto que
será fundamental para toda tomada de consciência da época moderna,
da Revolução Francesa em diante.
No
inconsciente coletivo, o príncipe disfarçado de pobre é a prova de
que cada pobre é, na realidade, um príncipe que sofreu uma
usurpação de poder e por isso deve reconquistar seu reino. Quando
cavaleiros caídos em desgraça triunfarem sobre seus inimigos, hão
de restaurar uma sociedade mais justa, na qual será reconhecida sua
verdadeira identidade. (Italo Calvino. Por que ler os classicos)
